f. web


[Ensaio das mãos]

não é necessário dizer-te      
mas o digo mesmo assim
eu sempre te direi!

Órfã de um silêncio austero esculpido em poeira e marfim   nada era maduro em mim.  tinha a voz com coisas de menina e o desassossego da sede   pressentida no deserto em evolução que vinha logo a frente.    cedo era muito tarde para mãos tristes que depressa amolavam as nervuras da razão à memória de um rio distante   sem que os pés tivessem ainda tocado o peso do chão.   - simples -   bastava inventar o abismo em deslumbramentos líricos  para que nascessem asas na carne em fuga  a voragem do destino.   infinitamente lúcida ainda me dói o peso brutal do meu corpo quando no primeiro estalo dos ossos se fez noite ambígua num rasgo de luz e de sangue.  ainda respirava quando uma voz me apaziguou:   - cuida a memória do amor farto,  a fonte inesgotável que se move em direção as tuas mãos.   naquela noite mesmo    choveu em mim. 
f.  verie astharoth



[suspensos]

sabe mamãe
faço dos incêndios dos dedos
degraus para a minha existência

enquanto a fumaça sobe entre linhas
me declino junto ao que resta das cinzas
de um filme Nóir
e respiro uma conversa
entre adultos

dúbios
bem vestidos

personagens suspensos
entre lábios obscuros
de pergaminho 
imersos em hálito
de whisky

finjo compreendê-los
 mamãe
quando obscura mesmo 
 é a noite em que não se busca
[a luz]

f. even




[Simetria]


me acendem os olhos quando 
adentro nas tuas imagens
à procura de algo que me sirva

[diante do que leio
desconheço outra medida para o belo
se não a simetria que há entre o movimento
profundo das sílabas e o fascínio
do olhar que cobiça ser raiz]

ajusto- me    para ficar do mesmo tamanho

alongo-me
sou grande
me espremo
fico nua
elimino o ar dos pulmões
até ficar pequena

ainda assim   não existo em tuas mãos

sangraria se me soubesse líquida
em teus devaneios

mas intransponível
é o que não se adivinha na outra metade inteira



[ Diálogo das Ausências ]

leva-se um tempo
até que se apaguem
das cinzas da memória
as pegadas de uma casa
repleta de movimento


mas vislumbro a lágrima
onde um barco navega
 - lentamente -
para morrer à boca
e ceder espaço ao
diálogo das ausências


nesse dia prometo
abraçarei o silêncio


render-me-ei aos desígnios do poema

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f. web
t. knut ekwall


                                                                         plana o sonho
                                                                            sobre a instável
                                                                                      curvatura da realidade

F. hengki koentjoro


A distância

há tanta luz nesse porto que se anuvia


ouço um Vivaldi esganiçado
no silencioso voo quebrado


subo alguns degraus para
melhor observar os pássaros


e noto que nem todo voo é belo


há os que se arquitetam ferozes
no voo vertical das suas vítimas 
sob as penas na praia


e no passo manco dessa guerra
concluo não ser o deslumbramento
dos braços estreitos do tempo
que me atraiam


nem o voo
nem as asas
muito menos os pássaros


e sim a distância
- um bom pedaço em linha reta-
para que eu possa
acomodar todo um caminho
de sonhos e de glórias

26-03-2012

f. eric fortune

Eis o que me diz


enquanto luto para sobreviver
em meio ao caos ao qual permiti

[entre o nada e o princípio]

alimentando-me da poeira suspensa
deixada pelas estrelas errantes
que passam pelo meu caminho

eis o que me diz:

-sou o mar! sou o final dos ciclos!

vê porque me cabem tantos nomes

perto de ti
eu ainda nem existo!
f. lissy elle




Da solidão


agora que a memória se recolhe a casa definitiva
e as aves são um horizonte de promessas


medra-me a nudez das sombras
e a cama por fazer


chaveio portas
tranco janelas
vedo todas as frestas
fecho a cara


apressadamente
escrevo


não sei quanto ar ainda me resta


[ Por um sábado de aleluia antecipado ]

I.
o vento forte arrastou
para o canto o poema


II.
[por não saber rezar]
flexiono os joelhos
estendo os braços
e com ares de profeta
orquestro uma prece

aleluia!
aleluia!
aleluia!


III.
e no azul cinzento dos meus olhos
a fênix renasce

Formas

             f. hengki koentjoro

[ Formas ]



era apenas uma alma inquieta
que saia cedo de casa
e pela janela do carro
olhava os prédios
a se erguerem imponentes
sobre um chão de pedra


[pedestais exibicionistas das suas formas generosas]


todos ali
perfilados
sem se ligarem a nada
interrompendo o olhar à espera de um céu
[de possibilidades]


e a conta não fechava


não sabia das pontes que ligavam
o real ao imaginário
das janelas poéticas dos poetas
dos sonhos postos para fora em prosa


não sabia de nada


era apenas uma alma inquieta
sem o horizonte que buscava
vendo através da janela sua alma